TRAVESSIA PELA COVID-19

 

Ogvalda Devay de Sousa Tôrres

 

 

2020. Ano iniciado, expectativas criadas, planejamentos vários.

 Desde o início, já foi diferente. Temos o hábito de reunir a família, todos os anos, enquanto viveu a matriarca, minha mãe, a avó das minhas filhas e dos meus sobrinhos, a bisavó dos meus netos e sobrinhos netos, em nossa residência, onde a mantínhamos após a viuvez. Depois de seu falecimento, para o réveillon, tínhamos duas outras opções: nossa casinha de praia, com mais duas casas vizinhas, da irmã e da sobrinha e o apartamento da filha mais velha. Ótima opção, bastante espaço, natureza, verde da plantação, azul do céu a descoberto, canto dos pássaros ao amanhecer, marulho das ondas, areia, barro, sem asfalto, sem prédios, permitindo descansar a vista no horizonte. Ou, pela distância, em apartamento na orla de Salvador, da filha colega de profissão, apreciando, também, o mar, acompanhando a praia até Itapuã e assistindo o colar de luzes dos veículos que normalmente se deslocam para o réveillon em local preparado para a queima de fogos da cidade do Salvador e o show organizado pela prefeitura local.

         Não. Esse ano não foi assim. A filha colega fez viagem internacional, outra filha e família, com adolescente que neste ano enfrentaria o ENEM, deslocou-se para bairro distante, onde jovens estariam reunidos. O 2020 iniciou-se em nosso apartamento com a primogênita e nosso genro, o casal representando toda a família.

            Janeiro decorria, é o mês das despesas, sociedades, academias, conselhos, IPTU, IPVA, festas populares, novena do Bonfim, e essa festa, então, completo quatro décadas participando dela, integrando a orquestra e coro com meu violino, encantando-me com a beleza da música sacra, admirando os lindos solos, o fervor do povo na interpretação dos hinos, especialmente do mais popular deles com o refrão “Nesta Sagrada Colina, Mansão da Misericórdia, Dai-nos a Graça Divina, Da Justiça e da Concórdia”.

            Logo chega fevereiro, costuma-se falar que o ano começa depois do Carnaval, e, de fato, assim é. Colégios iniciam atividades que são interrompidas para o Carnaval, e notícias começam a aparecer, de leve, sobre nova doença observada no exterior. A minha filha primogênita, funcionária pública de férias, resolve fazer uma viagem internacional com a família, e conhecer, melhor, a Espanha, aproveitando, exatamente o mês do carnaval. Ela foi um presente de Deus que ganhei em meu aniversário, no inicio de março de 1965.Então a viajante programou retornar da viagem a tempo de nos reencontrarmos em data festiva. E assim aconteceu exatamente na semana em que a Espanha iniciou o sofrimento com a epidemia da Covid19 que ceifava a vida dos espanhóis. Que susto levamos, bem como os viajantes, que já retornaram protegidos com máscara, álcool gel e todos os cuidados necessários. Entramos em fase de observação, temerosos de que os viajantes tivessem retornado ao Brasil em fase de incubação da doença.

            Este período ultrapassado, chega a data do aniversário da mãe e filha, e fomos até ela para o necessário encontro, nada duradouro,  a consciência da necessidade de isolamento em nossa casa, habitada por um casal de idosos vulneráveis, inclusive com co-morbidade. De volta, a prudência, antes de alcançar a residência para iniciar o confinamento, levou-nos a uma farmácia para abastecimento das medicações necessárias;

            Começaram as notícias, internacionais e nacionais, as providências no Brasil e na Bahia, um desconhecido exigindo normas. O principal veículo de informação, o jornal falado, que funciona coincidentemente nos horários de café da manhã, almoço e jantar, refeições que costumamos fazer na copa, diante de uma televisão. Então, o apavoramento da população foi iniciado. Como médicos, tínhamos a curiosidade, e, mais que isso, a necessidade de conhecer, o máximo sobre o agente patógeno que causava doença grave.  A Saúde Pública disponibilizou atendimento telefônico para pessoas com sintomas que pudessem ser atribuídos à fase inicial da doença e para surpresa nossa, recebemos a primeira ligação, buscando informações sobre idade, estado de saúde, etc.. Informamos nossa profissão de médicos, que estávamos bem, e pareceu-nos elogiável o serviço. Só que continuaram as ligações, por vezes três em um só dia, o que passou a ser estranho! Resolvi pedir identificação de quem estava falando, e a informação foi de que era uma técnica de enfermagem, do Rio de Janeiro. Posso identificar o número do telefone da chamada, e fui testar... não conferia.

            A vida corria diferente, de casa continuava atendendo os alunos de Biomedicina que já os conhecera presencialmente, adaptando-me às aulas on-line, contando com a sapiência em informática deum dos alunos que me dava apoio no manejo das plataformas, e minha função de docente transcorria normalmente; foi possível concluir o primeiro semestre letivo a contento de todos, professora e alunos. Em fins de semana, sentia falta dos ensaios de orquestra nas tardes de sábado, do almoço com a presença dos familiares, principalmente dos netos aos domingos, mas adaptada à situação.  O marido preenchia o tempo assistindo filmes, futebol, e eu gostava de ligar a televisão para estações francesas, interessada em ouvir o idioma, mais do que a programação, e me habituei a conhecer a CNN, os debates, para complementar meu conhecimento político e da evolução da saúde no Brasil. Foi um desastre! Comecei a me preocupar com a situação política mais do que com a já pandemia.

As lives iam surgindo, cada vez em maior número, as instituições com atividades suspensas iam retornando nesse estilo, às atividades, então, os celulares e o computador já não tinham mais descanso. O isolamento físico permanecia mas a comunicação com grupos, os trabalhos online cresciam em número e em tempo. Outro incômodo eu sentia: pessoa cultas, com boa formação não se continham e se expressavam em tom de revolta, com intenção de ataque político, em momento inadequado, quando a compreensão, a esperança, o afeto eram necessários. Os grupos eram variados, de familiares, religiosos, de academias de letras/artes, de pesquisadores, de Lions, de Leos (jovens do leonismo), associações culturais... O LIONS, (letras que traduzem seus princípios Liberdade, Igualdade, Ordem, Nacionalismo e Serviço, e onde o companheirismo é a principal característica entre os seus membros), logo exigiu o comportamento de respeito aos “companheiros”, como se tratam, sendo proibido discutir religião, política e futebol, e foi criado um novo grupo para eles se sentirem mais à vontade, chamado “Jaula Aberta”. Mas em outros grupos, não foi assim, pessoas se afastavam em consequência do tom inapropriado dos temas discutidos, preferiam a paz, os fake News incomodavam a sociedade.

            Mas o tempo ia passando, a dor da perda de amigos e familiares ia acontecendo, comigo não foi diferente, perdi amiga que mais parecia irmã, também ex-funcionária de trabalho com quem mantinha amizade profunda bem como reconhecimento pelo trabalho competente e responsável a meu lado, colegas médicos, colega de orquestra, também.

Em grupo de pesquisa cujos membros já se consideram uma família extensa, a cada momento um novo adoecia e a preocupação crescia pela evolução da doença em cada um. Felizmente, estão todos vivos, o encontro regular, semanal, com esses colegas amigos e a professora orientadora, preenchia nossa alma, nossos corações, mas vários foram atingidos pelo falecimento de parente, irmão, esposo, pai e mãe, e todos sofríamos juntos.      

Faço esse registro na terceira semana de setembro. No Brasil, somente agora, a curva epidemiológica diária começa a demonstrar uma queda nos casos de adoecimento bem como nos de óbitos. Como no início da pandemia, o Brasil observou o comportamento em outros países, que passaram pela experiência antes que nós brasileiros, e uma esperança de dias melhores surge, ao lado da prudência da possibilidade de uma nova epidemia se instalar à medida que formos retomando nossas atividades.

E o que restou dessa prologada experiência? O que mudou em cada um de nós?. Com certeza tivemos oportunidade de sentir, observar, o valor de uma FAMIÍLIA! Que saudade dos encontros familiares e dos beijos dos meus netos. A certeza de quanto o amor constrói. A consciência de que os momentos precisam ser bem vividos, vivenciados, compartilhados, celebrados. Que todos que nos cercam têm um extraordinário valor. Que a natureza é bela, e que saibamos admirar a sua beleza. Assim seremos felizes.

Comentários

  1. Ogvalda, querida, que belo texto!! Um relato delicado das muitas transformações pelas quais as famílias estão passando nesse momento de isolamento social. E mesmo com a "Cruel pedagogia do vírus" (Santos, 2020), que nos traz perdas e dor, fica a sua mensagem de esperança e fé nos vínculos familiares para a superação de toda e qualquer dificuldade! Gratidão!!!!! bjs

    ResponderExcluir
  2. Parabéns para minha querida e inesquecível Mestra.
    Não sabia que tb era uma admirável escritora.

    ResponderExcluir
  3. Aos bondosos leitores, gratidão pela atenção.
    Ao colega jovem (infelizmente não os identifico), meu abraço.
    Não, não sou escritora, no entanto integro um seleto grupo de estudiosos capitaneado por uma "xamã" que nos reúne, e construímos o que lhes ofereceremos doravante.
    Abraço-os carinhosamente.

    ResponderExcluir
  4. Parabéns, Ogvalda pelos escritos no Diário da Nau. Mais uma surpresa! Você personifica a educação integral dos gregos na PAIDEIA. Além de musicista, você se inscreve como escritora dando vazão à sua Arte, como um guache cuja tinta vai se espalhando no papel em tons suaves iguais à leveza da sua alma pintando o cotidiano. Abraços de Valter e Carmo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O Relógio do meu pai

Navegando em mares da pandemia

#resistir para existir #existir para resistir