Diário da pandemia 2: 179º dia, 28ª semana (13 setembro 2020)

 


Eu coloco os dias passados na pandemia na folhinha - como Sexta-feira fez na ilha deserta - como fazem os presos isolados nas paredes de suas prisões. Porque sou uma prisioneira, numa jaula bonita, clara, iluminada pelo sol e pelo calor humano, mas: prisioneira. Daí marco o tempo: são 179 dias e estou na 28ª semana de prisão.

Daí aconteceu um acontecimento fenomenológico que, quando tentei contar para Bella, minha neta, ela disse:
-Por que não escreve isto?


Daí escrevo:
Fui de carro guiando - porque guio, gosto de, e guio muito bem - até Ubatuba, 230 km de casa.
Na estrada, - a longa estrada vazia, mas cheia de montanhas, céu enorme, vacas pastando, muitos verdes, lonjura -
mas também na minha casa de praia onde permaneci uns 10 dias,
o fenômeno ocorreu: a paisagem entrou no meu olho e se fez Um com ele.
Primeiro, achei que não estava usando óculos. Coloquei a mão neles, e lá estavam. Portanto, esta transparência e imediatez do fora estavam ocorrendo dentro.

Perguntei a Bella:
- você já teve isto de a paisagem estar dentro de você?
- nunca, vó.
- que pena!

Porque a imersão do fora no dentro era puro júbilo, felicidade plena. Mas nada a ver com êxtase. Era um sentimento de plenitude existencial. E de agradecimento. Por estar viva, viva em um mundo tão belo, tão colorido, tão incrivelmente colorido.

Eu pensava:
“Eis um fringebenefit de estar presa: quando solta, você não se diferencia do fora e isto é tão lindo que se torna beleza pura, sem intermediações”.

O interessante é que o fenômeno retornou várias durante a minha estadia na casa da praia: olhando a janela, o verde enchia os meus olhos de verde sem separação e isto era felicidade.

Então estar feliz era isto: estar plenamente conforme o fora.

PS: não sei por que tem tanta gente infeliz na pandemia se é só olhar para fora que vem a felicidade!

Comentários

  1. Muito bonito ! Fiquei feliz quando li!😊

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  2. Grandes escritoras têm o dom de nos maravilhar, como faz a profa Elaine nesta crônica: o nó que fica na garganta ao ler o primeiro parágrafo é desfeito, com leveza, ao final.

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  3. Que os nossos olhos possam contemplar e alimentar o nosso interior com a beleza externa que nos é ofertada pela natureza. Belíssima reflexão Elaine!

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  4. Eu gostei muito do conto ele traz um pouco da realidade sem deixar de ser um conto legal é um tipo de conto que pega nossa atenção 10/10

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