A casa na pandemia
A casa na pandemia
Rita Amorim
Do alto de meus 54 anos, fiquei
pouco tempo seguidamente em casa, depois da minha infância, duas vezes. A
primeira porque estava doente e a segunda, agora para não ficar doente(covid-19).
Naquela época minha sobrinha disse: “meu Deus, quem vai aguenta Amorim em casa,
se quando ela está trabalhando ver tudo, imagina agora”. Escutei e não
argumentei. Fiquei refletindo, será que realmente vejo tudo, mesmo?
O tempo passou e Vera me
mostrou que eu estava certa em interrogar a afirmativa de minha sobrinha. Vera
é a diarista que trabalha conosco, faz muito tempo. Nos seus dias de trabalho, aqui
em casa, ela chega por volta das sete horas, horário que em geral, também saio
para o trabalho, basicamente nos cumprimentamos e seguimos para nossos
afazeres, ela na minha casa e eu na rua (Instituição).
Mas, como em geral volto para casa na hora do
almoço, porque gosto de ver e saber como estão as coisas em casa, de degustar
uma comida que é preparada com afeto e de descansar quinze minutos no sofá da
sala, novamente encontro com Vera e com um tempo para uma prosa, ela é
apaixonada pelo marido, Zé, sempre em nossas prosas, ele aparece, ela também
sofre por demais quando está com algum integrante da família adoecido.
Ela quase sempre possui
uma queixa nova para mim e tem um jeito peculiar de me comunicar. Rita, venha
cá, você não está vendo isso, não? Em geral, são coisas que realmente eu
deveria ver, mas não vi, lamento. Quando é um problema que já conheço, fico
feliz, porque dei uma a zero nela. Sempre possuo um dia corrido de trabalho, às
vezes nem posso vir almoçar em casa, chego a noite e diversas vezes, ainda levo
trabalho para casa e no dia seguinte, saio cedo novamente.
Dentre, os chamados de
Vera que me marcou profundamente foi do box do banheiro. Ela me chamou, fui
atendê-la, imaginando, o que será dessa vez, e ela disse, você não está vendo
isso, não? Uma casa que transita crianças, gente idosa e você mesma, se isso
aqui cair encima? Gelei! Ela apontava para a dobradiça da parte inferior da porta
do box que estava quase solta, realmente poderia cair mesmo. Fiz uma expressão
de desespero e rapidamente, pensei, como eu não vi isso? Me senti culpada,
confesso. Na mesma hora, liguei para o vidraceiro que faz serviço na casa e ele
veio ainda naquele dia e resolveu o problema.
Agora, estou em casa
desde dezessete de março e até setembro sem Vera, bem, as potencialidades desse
tempo são almoçar em casa, acordar um pouco mais tarde, cuidar das plantas,
observar os pássaros com calma e escutar o seu canto e tentar diferenciá-lo, dentre
tantas outras delícias, mas vivencio também diversas fragilidades, por exemplo,
perdi o direito e o gosto de descansar meus quinze minutos, preciso lavar a
louça, observar se as pessoas estão borrifando o sapato ao chegar da rua antes
de entrar em casa, preciso higienizar tudo que chega da rua, ah, lavo até
sacolas plásticas para colocar lixo.
Tudo que Vera via, agora eu
vejo, resolvo e gosto disso, mas confesso que fico cansada, pois preciso
responder as demandas de trabalho remoto que sempre são para ontem. Apesar
disso, a culpa deu lugar ao prazer.
Ah, outra coisa, gosto de
lavar louça, mas estou cansada de fazer essa atividade, lavo louça depois do
café da manhã e depois do almoço, às vezes acho que estou louca, pois adquirir a
mania de arrumar a pia antes de dormir, atividade que sequer pensava antes da
pandemia. Também, quando a atividade de trabalho do dia seguinte não envolve o
encontro direto com outras pessoas, a exemplo de reunião, fico acordada trabalhando
ou fazendo nada até às três da manhã e acordo tarde na manhã seguinte, apesar
de saber que não é saudável, é um modo de me sentir “livre”.

Pró Rita arrasa muito!!! 👏👏👏
ResponderExcluirQue texto!!! A pandemia nos fez ver muitas coisas antes não vistas!
ResponderExcluirQue texto incrível é necessário. Parabéns professora Rita😍😍👏👏
ResponderExcluirRitinha: como sempre seus escritos encantam, pois tratam de aspectos da cotidianidade de modo delicado e poético. Neste contexto, em particular, de grandes desafios, aprendi com você que "a culpa pode dar lugar ao prazer" e que, apesar dos pesares, podemos "nos sentir livres". Gratidão. Beijo. Maura
ResponderExcluirRita, seu texto retrata o seu cotidiano antes e na pandemia de uma forma leve e bem humorada. Me identifico com o ver e o não ver algumas demandas da casa, mas no final não tenho como deixar pra la. Me dei conta de que ainda preciso me libertar mais dos horários . Beijos. Amo a sua escrita. beijos
ResponderExcluirMuito verdadeiro...também tenho esse hábito de almoçar em casa...legal seu texto ...poesia cotidiana...
ResponderExcluirNa verdade a lição que extraio do texto de Rita é que mesmo em meio à pandemia é possível encontrar prazer nas pequenas coisas! obrigada por me lembrar!
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