Peia no pé ou a vingança de Tita
PEIA NO PÉ OU A VINGANÇA DE TITA
Diana Alencar
Começo denunciando o título pretensioso, pois, na verdade, Tita nunca aparentou se aperceber muito de mim, purichê magrinha, que a contemplava de longe, com um temor medroso. Recordo-a orgulhosa, voluntariosa e muito segura de si, locomovendo-se com uma altivez e elegância, alcançada somente por modelos que lapidam a arte de desfilar em infindáveis e exaustivos treinamentos, logo furtados pelo avanço implacável dos anos ou pelos quilos indesejavelmente acumulados e combatidos. Tita não: sem demonstrar o peso dos anos, até vestida de verde e amarelo era a senhora mais elegante dos seus domínios, defendidos com uma ferocidade inigualável, sentida pelos que ousassem se aproximar dos seus espaços de uso exclusivo. Nesta hora, tão qual a Teresa da obra de Jorge Amado, longe se mostrava cansada da guerra, pois descia do salto da sua elegância para proferir impropérios, logo seguidos por bicadas, que faziam corar os mais calejados desavergonhados. Isso tudo sem nunca aparecer nos pasquins ou nas serrações anônimas e jocosas, que vitimavam as senhoritas e senhoras de bom nome que abriam furtivamente as suas janelas para os pés de pano, sob o olhar atento dos pescoços, nas madrugadas quentes da minha cidade natal.
Injustiçada, fui vítima de Tita muitas vezes e a detestei por cada dor que me causou. Tinha eu culpa de ser uma criança distraída e sempre me aproximar dos seus domínios? Na minha ingenuidade de menina atentada, e, às vezes, atulemada, não entendia a razão de tanta raiva: não tinha, a distinta figura, tudo? Ela podia comer bolo de puba, saeta, picuá, pomba de maroto, fufú e variados balseiros, sem nunca necessitar tomar chá de catinga de porco ou o odioso óleo de rícino, segurando uma chave para não engulhar, como fazia a meninada e também os adultos, quando exageravam na comilança. Também nunca a vi lavando os olhos com água temperada com limão para curar dordolho! Não desfrutava ela de todo o espaço na casa para o seu bel prazer, e do carinho invejado do meu pai? Com ele, Tita era puro amor! Por que, então, me atacar? Logo eu, que só queria acarinhá-la...
Anos depois, já longe da minha cidade soube que Tita sofreu um terrível acidente: um fio despelado a levou deste para um plano melhor. Morreu eletrocutada. Triste fim, que mesmo nos momentos em que mais a detestei, não desejei para ela. A raiva, a muito desvanecida pela roda do tempo, foi substituída por um sentimento que somente uma palavra, existente apenas na língua portuguesa, parece traduzir: saudade.
Recentemente voltei a me lembrar de Tita. Presa em casa por uma peia invisível chamada pandemia, fui obrigada a me encarcerar. Foi neste cativeiro sem grades, bem alimentada, amada, vestida adequadamente e com a liberdade para zanzar nos domínios amplos do meu lar, que me vi tentada a bicar, por vezes, até mesmo bem-quereres inocentes que, desavisados, se aproximaram, em alguns momentos nos quais o peso do isolamento fez aflorar em mim a irracionalidade. Como ela, tive as minhas penas aparadas pela COVID-19 e não mais pude alçar os vôos para espaços antes prosaicos e hoje, ansiosamente desejados: uma água de coco na praia seguida de um belo por do sol, uma caminhada no shopping, um encontro com os colegas de trabalho na hora do cafezinho... Entendi Tita, mais do que nunca: Papagaia da caatinga nordestina foi retirada sem dó das matas baianas, e encarcerada em uma prisão sem grades, na casa dos meus avós paternos. Estupidamente, suas penas foram aparadas, ano a ano, privando-a do ir e vir que somente as suas asas abertas, em vôo majestoso no céu, possibilitariam. Como não se revoltar? Perdoei de vez as suas bicadas irritadas, de papagaia cativa, e roguei silenciosamente o perdão para a menininha de misse no cabelo que teimava dela se aproximar, sem a sua dor, de prisioneira sem asas, considerar.
P.S.
.Como há verbetes no texto que somente são compreendidos em minha cidade e em minha família, eis um pequeno glossário para aproximar o leitor de um patrimônio, ainda não dicionarizado, produto de ricas experimentações da linguagem em Barra-Bahia.
ATENTAR:chatear.
ATULEMADO: aquele que fala bobagem; tolo.
BALSEIRO: consumo exagerado de doces.
CATINGA DE PORCO: Planta cujas folhas são utilizadas em chás, para fins de tratamento de problemas intestinais.
DORDOLHO: Conjuntivite. Inflamação atinge a pálpebra.
ENGULHOU: enjôo, vomitou.
FUFU: Paçoca doce feita com gergelim torrado.
MISSE: grampo de cabelo.
PASQUIM: Folheto de autoria anônimo, que divulga fofocas, como traições amorosas de pessoas de destaque na sociedade local, com uma linguagem provocativa.
PESCOÇO: pessoa que cuida da vida alheia
PETA: biscoito de tapioca assado.
POMBA DE MAROTO: biscoito de tapioca frito.
PICUÁ: biscoito de tapioca frito.
AMEI D+ , UMA HISTÓRIA BEM EXPLICATIVA E BEM NORDESTINA TBM , GOSTEI MUITO , MUITO MESMO
ResponderExcluirUma das melhores histórias que já vi na vida , Gostei muito ameii
ExcluirParabéns pela história professora , nunca tive dúvidas do potencial da senhora , nesse período de aula a senhora tá sendo uma amiga para mim e uma ótima professora.❤️
Excluirgostei muito
ResponderExcluirAmei demais, muito legal e explicativa.
ResponderExcluirAmeiiii 😊
Amei
ResponderExcluirGostei muito
ResponderExcluirO livro do muito bem explicativo, e a escrita 🛐🛐🛐🛐🛐 FOI UM ÓTIMO LIVRO
ResponderExcluirDiana, querida: Que beleza de texto! As imagens afloram em nossa mente enquanto nos nutrimos com a leitura e cultura.... as cores, os cheiros, os sabores... e o sentimento da criança. Depois, a constatação da verdade escondida na "impiedosa" atitude de Tita, cuja a história também é de tantos outros seres, que em algum momento da vida têm suas asas cortadas, como se estivéssemos sempre em uma pandemia..... Gratidão, Diana! bjs Maura
ResponderExcluirQue maravilha de texto, Diana! Encantada com o olhar do adulto em relação aos sentimentos e percepções da criança sobre tia Tita. Como é bom esse exercício para o reconhecimento dos "porquês" do outro e nos libertarmos dos ressentimentos e mágoas da infância. Parabéns! Beijos Teresa
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