Tia Olti: uma crônica da pandemia

 


 

Tia Olti era a mais velha dos 10 irmãos da linha paterna, meu pai e minha tia, a que me criou, sendo os últimos na escadinha.

Tia Olti morava numa casa pequena, longe dos demais irmãos, num bairro afastado, sendo casada com tio Bernardo, dito ser ruim, mas certamente muito feio. Isso eu lembro. Não teve filhos.

Contudo, com certa regularidade, devíamos ir visitá-la em sua casa, pois me recordo dela, casa.

Depois que tio Bernardo morreu, tia Olti continuou morando na sua casinha, mas passou a vir em casa: ficava sentada lá no  sofá da sala, sozinha, pois, mesmo sendo solicitadas, minha irmã e eu não tínhamos o que conversar com ela.

Além disto, regularmente ela telefonava para nossa casa, onde se travava sempre o seguinte e imutável “diálogo”:

- Como vai tudo?

- Bem.

- E como vão todos?

- Bem.

- Mas como vai tudo?

...

Ela falava com um acento de migrante, que não sei reproduzir, mas que era objeto de chacota, principalmente do meu primo.

Porque escrevo esta crônica hoje, denominando-a crônica da pandemia? Porque vejo alguns diálogos com familiares espelhando o empobrecimento na vida das pessoas, como o sofrido por tia Olti: as pessoas não têm o que se falar, porque o tempo parece parado. Tenho pensado na tia Olti como alguém à frente do seu tempo.

Só para finalizar. Ela não tinha mesmo do que falar. Então, arrumou um assunto: sua herança, a disposição do que ia dar a quem. Conforme a variação não sei do que, alterava o destinatário da mesma. Essas conversas eram com minha tia, mas sabíamos dela. Como ela demorou a falecer, houveram várias mudanças na herança. A anotar que não era rica: mas deixou para mim e para minha irmã um lindo conjunto de anel e brincos com águas marinhas azul claro que nosso pai lhe dera por ocasião de seu casamento; deixou o quadro dos meus avós para mim (já conhecido por muitos, porque objeto do estudo Objetos da memória) e todos os seus móveis foram para a prima Paulininha, porque esta não se casara e não era rica. Os demais bens, não sei para quem foram.

Creio esta história ser paradigmática de muito do que está acontecendo nesta pandemia.

Comentários

  1. Ótima reflexão e comparação, realmente os dias parecem iguais se não fosse a volta ao trabalho todo dia parecia domingo, portanto sem novidades para contar...
    .

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    Respostas
    1. Elaine em seu texto lindo e poético nos leva a reflexão
      do isolamento, sua repercussão nos vínculos familiares, e a herança como desejo de continuidade, pertencimento, afetos e desafetos de maneira circular.
      Adorei.

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  2. Temos essa sensação na escola .... estamos em 2021 lidando com pendências de 2020 e 2022 está próximo....e a sensação é que algo parou e precisamos dar movimento....mas as vezes nos perguntamos como...? A percepção é de que parece que não avançamos...

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