Memória afetiva e saudade

 

Quando penso no momento presente há um turbilhão de sentimentos inicialmente provocados pela pandemia(covid-19), ou seja, pelo isolamento/distanciamento social, que perpassa pela carência de convívio(s), proximidade de pessoas queridas e também pelo medo de adoecer, quiçá morrer, assim tão de repente, como milhares de pessoas!

Há uma ambivalência de sentimentos e lembranças, ao mesmo tempo que desejo externá-los, não sei se já consigo e/ou posso descrevê-los! E me pergunto: o que realmente quero escrever, descrever, registrar?

A princípio, o que sinto que busco é a presença na ausência de convívios, do contato físico, do olho no olho do(s) outro(s), dos cheiros, sorrisos, sons das palavras, como costumam dizer da “PRESENÇA” do outro ao vivo e a cores.

Ah! À medida que penso e sinto identifico que é na ausência que procuro a revivescência de um olhar, de um sorriso e mais ainda de um abraço, mas não de qualquer abraço! É o abraço da minha mãe!

É do abraço que foi conversado, solicitado e conquistado já na adultez. Afinal, descobri observando que no seu cuidar extremo existia a ausência/carência de abraços, uma marca que estava na sua história de vida e a partir de então compreendi que a gente aprende a abraçar no exercício cotidiano de troca de afetos.

         Ensaiamos tantas vezes desde antes do início da pandemia, pelo telefone, dar esse abraço, não é mesmo mãe? Falávamos do nosso dia a dia, das nossas saudades, das suas orações por cada pessoa da família, da sua saúde e de tudo o mais que nos desse vontade de conversar. Como é gratificante lembrar que falávamos uma para outra, principalmente no momento que íamos nos despedir “EU TE AMO”. De como estava difícil planejar, neste momento de pandemia, a minha ida ao Rio de Janeiro para vê-la, abraçá-la e matar as saudades. A senhora sempre dizia: fique tranquila minha filha, vai chegar o momento, mas a pandemia foi adiando, adiando e agora não poderei mais dar e nem receber esse abraço de você, nesta vida.

Não fizemos o nosso ritual de despedida física, foi tudo tão de repente, não é mesmo! Não te enterrei em uma sepultura, mas soube pelo meu irmão que o caixão estava fechado, pois ainda pairava a dúvida se tinha sido de covid-19, mas uma semana após o resultado do teste, não foi esta a causa da sua morte.

Mãe, na nossa proximidade amorosa o meu ritual pela sua passagem para uma outra dimensão espiritual é o exercício diário do desapego material, físico, um aprendizado dolorido regido pelos sentimentos, mas tão belo e prazeroso porque tece na memória as lembranças que quero ter de ti!Dentre elas o seu sorriso, o seu cheiro, o seu cuidado com o outro, a coragem para superar as adversidades e o desejo de ser feliz a cada dia no que a vida oferece de mais simples. Gratidão a sua beleza de ser humano e a sua luz que continuará iluminando os seus, meus caminhos.  Tete

Comentários

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  2. Li as delicadas linhas deste texto várias vezes e em vários momentos, emocionando-se a cada retorno. Lembranças lindas, que eternizam uma relação para além da existência física. Obrigada, Teresa.

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