Galerias
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Rita Amorim
Sou daquelas pessoas que gostam de dar e receber presente, a sensação corpórea que me invade nesses momentos é semelhante. Por isso, costumo ter muito cuidado com os mimos que escolho para presentear alguém, do mesmo modo tenho muito cuidado com os que recebo, às vezes se torna uma questão delicada, pois possuo dificuldade em me desfazer deles, apesar da necessidade, muitas vezes.
Isso me levou a criar uma galeria na parede do corredor da minha casa para abrigar muitos desses presentes. Estes contam um pouco da minha história, marcada por viagens, cursos de pintura, de fotografia, de momentos, de amizades... A insuficiência de grana para aquisição de obras de arte me levou a fazer uma composição com retratos da obra do artista, de cartão postal, de fotografias e outros objetos. Por conta dessa galeria, ganhei um amigo velho.
Foi nesse processo de emoldurar para compor o espaço que conheci seu Jaques (ele gosta de usar camisa importada, geralmente de Londres ou da Itália, especialmente, nacional, somente de São Paulo e eu amo elogiá-lo com as suas lindas camisas e ele ama me dizer: um amigo trouxe da Itália, meu filho trouxe de Londres) e a sua galeria, amor à primeira vista. Ele é um sedutor e eu me deixo seduzir por ele e o seduzo também. Me sinto muito bem quando vou à galeria dele. É uma delícia o processo de escolha das molduras, se chega algum cliente, ele logo me pergunta: está com pressa? Eu respondo: não. Então, ele me deixa aguardando, atende a pessoa, às vezes me convida a dar pitaco na escolha dos outros e logo que a pessoa vai embora, ficamos nós dois lá proseando.
Pois é, nesse tempo de pandemia sem viagens, sem comemorações, não ganhei, nem comprei algo que necessitasse emoldurar, também é hora de dar um tempo. Mas estava na casa de minha mãe e avistei uma pintura de minha irmã que pela localização que estava, o destino seria se acabar ali. Perguntei a minha mãe se podia ficar para mim, ela disse que sim. Motivo para ir visitar o amigo Jaques.
Isso aconteceu após sete meses da pandemia, lá fui eu e uma amiga levar a pintura para emoldurar e matar saudades. A minha amiga também gosta muito dele. Eis que ele, como sempre nos recebeu com um sorriso e o cumprimento emergente (nos ofereceu o cotovelo e riu) na pandemia. Observei que para ele, aquele cumprimento se tornou um momento de risos e de ensinamentos, logo após, ele perguntou: “você conhecia esse cumprimento?” Eu devolvi-lhe um sorriso.
Ele me ofereceu uma cadeira para sentar, minha amiga ficou em pé, admirando as obras e fomos prosear, eu pensei como será que seu Jaques está encarando esse momento? Aí puxei conversa. Ele disse: que homem poderoso, esse novo coronavírus, quer mandar em todo mundo, tu já viu, menina? Deixou todo mundo preso. E deu uma risada gostosa. Logo percebi que não ia acontecer conversa sofrida sobre o momento vivido.
Ele apresentou as sugestões de molduras para a tela. Brincamos sobre a escolha. Por fim, decidi por uma que eu, ele e a minha amiga gostamos. Tudo resolvido. Na despedida, ele nos acompanhou à porta.
Então, ele disse: Espera aí, conhece esse cumprimento? Abre as pernas, e sorriu... esse aqui é de perna aberta. Minha amiga afastou as pernas e ele tocou o pé dele no pé dela. E disse: Primeiro um, depois o outro, rimos todos juntos.
Ah, para higienizar as mãos, ele ofereceu álcool em gel à 70% perfumado, então, perguntei o que era, ele disse: não vou contar o meu segredo a você, não, risos. Coloquei um produto dentro.
Fiquei pensando, a ciência não sabe ainda, porque algumas pessoas entram em contato com o novo coronavírus e não têm sintoma algum, outras têm sintomas leves e outras ficam gravemente doente e muitas vezes morrem. De modo semelhante, cada pessoa reagiu aos tempos vividos, no que tange ao afastamento/isolamento social, independentemente de idade, então precisamos respeitar e acolher cada pessoa de modo singular, evitando rótulos, mas sim, orientando contra o perigo de comportamento de risco em tempos de pandemia.
Seu Jaques parece ter encarado tudo como um momento de aprender novas coisas e transformou os novos cumprimentos em brincadeiras, dando leveza a ele e a quem interage com ele. Ah, ia esquecendo, durante a pandemia ele deixou de almoçar em casa ao meio dia como costumava fazer. Chega na galeria às nove horas, não fecha para o almoço e encerra o expediente às dezesseis horas. Disse que está amando essa mudança.
Gostei muito da prosa com seu Jaques. Bom dia!
ResponderExcluirGratidão Rita por este texto tão cheio de afeto.
ResponderExcluirMaravilha Rita considero o ato de dar e receber uma arte...ser generoso e também mostrar gratidão com o afeto demostrado por um presente dado é muito lindo. Sugere que estamos atentos aos sutis movimentos do que há de mais nobre em nós....bjs
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