Percursos e caminhadas nas quatro estações: o experienciar da pandemia

 


PERCURSOS E CAMINHADAS NAS QUATRO ESTAÇÕES: O EXPERIENCIAR DA PANDEMIA

Carla Verônica Albuquerque Almeida

 

Verão de 2019...

Adentramos na estação do SOL, dos encontros, das festas... abrimos o coração para os sonhos, como nos convida o Grupo Roupa Nova na “Canção de verão” (1981):  o sol latente nos atrai...

É verão
Bom sinal
Já é tempo
De abrir o coração
E sonhar [...]

Um tempo para sonhar com o Ano Novo, estabelecer metas e renovar as esperanças prenhes a se descortinarem... a serem concretizadas. Mas, eis que alguns desses sonhos foram adiados, postergados; outros... quiçá poderão ser concretizados.

Tudo isto porque em um continente distante, um horizonte incógnito de mudanças se desvelava sorrateiramente, ampliando-se em um curto espaço de tempo em todo o planeta, com uma celeridade que desnorteou a humanidade. Uma crise de proporções desenfreadas se instalou e abriu as portas para muitas incertezas, angústias, medos, presentificados cotidianamente frente ao ‘desconhecido’, incidindo diretamente como uma ‘roda-viva’ que fez o tempo rodar num instante, nas nossas dinâmicas pessoais e sociais, como nos alerta Chico Buarque (1986),

      [...] Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá

Roda mundo, roda-gigante

Roda-moinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração [...]

 

O movimento da roda-viva deu muitas voltas, não apenas no ‘meu coração’ e na minha vida, mas na vida de tantas outras pessoas no mundo, alterando diferentes relações. A mídia já havia noticiado a chegada do Novo Coronavírus no Brasil. E de forma muito rápida, o que inicialmente nos assustava, foi tomando forma e se agigantando universalmente. Impossível não pensar na ameaça contínua, a qual estávamos submetidos diante dessa nova realidade.

Os meios de comunicação e as redes sociais noticiavam a todo instante o crescimento de casos de contaminação e de óbitos. Cuidados com a higiene pessoal, com alimentos e utensílios se intensificaram, máscaras se tornaram peças de vestuário obrigatórias... Como cumprimentar as pessoas diante de tantos receios? Abraços e beijos representavam ameaças... Como conduzir a vida frente a esta situação? Como equilibrar os nossos pensamentos que por vezes insistem em nos atormentar diante do medo? O afeto se transformou em transporte para a doença, em meio à expectativa e esperança de que em breve, possamos sair desta situação tão obscura... O isolamento imposto nos conduziu a um deserto social - afetivo necessário, para nos preservar e consequentemente preservar o próximo.

Cuidados redobrados tornaram-se frequentes com os familiares, especialmente os idosos. A inquietação, as dúvidas, a preocupação... invadiram o meu ser. Preciso cuidar ainda mais dos meus velhinhos... Meu pai havia saído recentemente do hospital, após idas e vindas ao longo de oito meses de apreensão e sofrimento. Preciso ter cuidado comigo mesma... Fui diagnosticada antes da pandemia com uma doença autoimune: PTI (Púrpura Trombocitopênica Imunológica), decorrente da baixa de plaquetas, a qual venho tratando com um hematologista. Enfim, meu trânsito agora se resume a ir à casa de meus pais, ir à farmácia e ao supermercado a cada quinze dias ou pedir remédios e compras pelo delivery, dispensar provisoriamente a diarista...

Destarte, entre subidas e descidas que a vida me apresenta, precisei dar novos contornos as minhas demandas pessoais e profissionais. Ter alguém que precisa ser isolado em casa não é fácil. Estar próximo e ao mesmo tempo distante. Procedimentos sanitários de lavar, esterilizar alimentos, objetos e o ambiente com frequência; situações incomuns que causam estranhamento. Como lidar com tudo isso e ainda ter que continuar as atividades profissionais, acadêmicas?

As águas de março vão fechando o verão e dando lugar ao outono, que para além da sua beleza estampada nas folhas que se metamorfoseiam, do seu clima de nostalgia, nos impele para cuidados maiores, nos deixam mais alertas, mais cuidadosas(os) diante das restrições que se avolumavam. Mas não podemos perder a esperança. Esperança do verbo esperançar e não de esperar, como já dizia nosso saudoso Paulo Freire (2014). Esperança que as águas de março, ao fecharem o verão, nos tragam promessas de tempos melhores, relembrando poeticamente Tom Jobim (1974)...

São as águas de março fechando o verão e a promessa de vida no seu coração [...].

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o Sol

É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o Matinta Pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira

É o mistério profundo, é o queira ou não queira.

[...] É pau, é pedra é o fim do caminho

 

Em meio à pandemia, atravesso pau e pedra, questiono várias vezes se é o fim do caminho... Por diversas vezes me sinto um toco e sozinha... na solidão que me transporta imageticamente a tantos lugares, a tantos sonhos, projetos... a tantas demandas... Penso no sol, nos seus raios ainda presentes no outono, que reenergizam as minhas forças, meus pensamentos, a minha vida. Diante deste mistério profundo, preciso decidir o que quero e o que não quero, refletir sobre possibilidades e impossibilidades... Faço uma parada, seguro no laço, pego o anzol e, mesmo que tombe da ribanceira diante de tamanha tragédia, alimento a promessa de vida no meu coração e externo em pensamentos e vibrações para o universo.

Vibrações que se intensificavam com a chegada do inverno, o qual anunciava um amplo e vertiginoso crescimento da epidemia em nosso país e consequentemente a necessidade de um maior isolamento. A voz de Tim Maia ressoa nos meus ouvidos: “Quando o inverno chegar... eu quero estar junto a ti [...]”. Que contrassenso: como estar junto das pessoas que mais amo, que mais tenho afeto, se  preciso redobrar os cuidados não apenas comigo mas, com as outras pessoas? Confesso que experimentei certo esfriamento de algumas esperanças... Ainda teríamos uma longa jornada com a pandemia presente em nossas vidas...

Como querer ‘estar junto a ti’ com uma avalanche de perdas físicas de pessoas queridas: pai, mãe, avó, tios, primos... Não necessariamente pelo vírus da Covid 19, mas creio Eu que, senão de morte natural ou por complicação outra; pelo adoecimento mental, psicológico que direta ou indiretamente esta situação nos impõe. Perdas sucessivas que nos entristecem, que nos tocam, nos atravessam... Como a de familiares do grupo de pesquisa FABEP (Família, Autobiografia e Poética), no qual o afeto, o carinho e a escuta sempre constantes, se presentificaram neste momento de dor... Posso afirmar que fazemos parte de uma Família!!

No turbilhão deste cenário, a única Amiga que encontrava era Teresa. Minha Amiga Irmã!!! Por morarmos no mesmo prédio e saber que ela também estava atenta aos cuidados necessários neste momento de isolamento, abríamos as portas das nossas casas. Sem beijos e abraços e, sentadas com certo afastamento, trocávamos ideias, falávamos dos nossos medos, expondo as nossas angústias, nos acolhíamos.

Um momento singular nestes nossos encontros foi quando fui surpreendida com um telefonema de Teresa, no dia 10 de setembro, de manhãzinha... Com sua voz embargada e profundamente triste, compartilhou a notícia do falecimento de sua mãe, Dona Teresa. As lágrimas corriam pela minha face ainda incrédula com o que acabara de ouvir. De imediato a memória foi acionada, trazendo-me recordações dos momentos em que desfrutei da alegre e doce companhia de Dona Teresa quando esteve aqui em Salvador. Imagens do seu sorriso, da sua fala mansa, afetuosa e do desejo por uma cervejinha gelada que Ela adorava!! Não tenho dúvidas de que o Universo ganhou infinitas alegrias com a sua presença!!!

A doutrina Espírita da qual sou seguidora, me conduz a crença na continuidade da vida no plano espiritual. Estamos aqui, na ‘escola do mundo físico’ de passagem... para aprendermos por meio das diversas e diferentes situações que atravessamos na dimensão terrestre. A pandemia que estamos atravessando é um momento único, que nos desafia e ao mesmo tempo nos convoca a uma ‘parada necessária’ para refletirmos sobre nós mesmos, pensarmos no próximo, desacelerarmos... Divaldo Franco em sua obra “No Rumo do Mundo de Regeneração” (2021), afirma que “[...] estamos passando por uma grande transição, em que o planeta passará da condição de mundo de provas e expiações para o mundo de regeneração”. Acredito que nada disso está acontecendo em vão e que as muitas aprendizagens por mim adquiridas com a Doutrina Espírita, na busca da minha reforma íntima contribuem significativamente para o aprimoramento da minha condição humana e espiritual.

Assim, a cada dia tenho me reinventado em todos os sentidos e refletido como nos diria Guimarães Rosa, “[...] que as pessoas não são sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão!”. Ao reconhecer que esta diversidade me compõe e me atravessa por diferentes histórias, vou me identificando e reafirmo para mim mesma de que a união dessas pluralidades pode possibilitar uma sociedade mais justa, consciente e humana.

Envolta nesta dinâmica reinventiva, foi necessário reorganizar as minhas dinâmicas acadêmicas: reuniões, grupos de pesquisa e acompanhamento de orientandas(os). No final de agosto, a universidade decidiu que retomaríamos o semestre de forma remota. A expectativa de trabalhar com aulas remotas síncronas e assíncronas não me assustou, mas demandou uma reestruturação dos componentes curriculares, frente à nova realidade. Finalmente chegou o dia tão esperado por mim!! Um misto de sentimentos prazerosos tomou conta de todo o meu ser ao entrar na sala virtual e (re)encontrar ainda que virtualmente, as estudantes e os estudantes!!

Setembro chega, já se vão sete meses vivendo neste cenário... A primavera se aproxima com suas nuances intensas, cheiros, sabores e coloridos. Penso nos versos de Nando Reis (2020) que ressoam na minha mente, reforçando a crença de que na “outra ponta” deste turbilhão, teremos sempre alguém a nos dar a mão e sempre alguém a quem devemos estender as nossas mãos...

Espera a Primavera

Se apronta

Que no fim das contas

Na outra ponta

Vai ter alguém

Pra lhe dar a mão [...]

Nesse movimento, estendi não apenas as mãos, mas o olhar, a escuta, o sorriso, para  amigas mais próximas, as quais não via desde o inicio da pandemia. Assim, combinamos pelo whatsapp, o dia e o horário para primeiro encontro por meio do Google Meet, dentre outros que se sucederam. Regado a boas conversas que oscilavam com narrativas permeadas por sentimentos experienciados na pandemia, não podiam faltar, é claro, um bom vinho ou uma cervejinha gelada!! Que maravilha!!!  

Para além destes encontros, reiniciei as aulas de Yoga, as seções de meditação e as doutrinárias no Centro Espírita duas vezes por semana por meio de plataformas digitais. Adentro no Meu Jardim - Vander Lee (2005), limpo a casa, meu quartinho interior... O que podar e o que cultivar?

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho                              

Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

 

Imersa entre as flores, faço uma releitura de mim mesma, tentando colocar as coisas no seu devido lugar... Retiro os espinhos necessários, revejo posturas, reavalio valores, minhas relações, refaço as minhas forças, bebo minhas culpas e releio minha vida refletindo sobre o que de fato faz sentido. Adubo o solo, rego minhas folhas, minha face, minhas flores, coração e mente. Sigo escrevendo minhas linhas e entrelinhas, meu caminho novo, cuidando bem de mim. 

 

Outro verão se aproxima...nos faz um convite para esperançarmos sempre... Que a paz não tarde a chegar! Que a empatia seja um exercício diário! Enquanto isso, continuo percorrendo os caminhos de mãos dadas com Martinho da Vila (1974), e faço um convite não apenas para mim mesma...mas para toda a humanidade: “canta, canta minha gente, deixe a tristeza pra lá [...] cantar forte, cantar alto, que a vida vai melhorar”!!

Comentários

  1. Que texto espetacular reflete exatamente o que sofremos com uma beleza e sensibilidade....
    Parabéns!!!

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  2. Maravilha de Texto! Ecoa em nossa alma e coração! Parabéns pelo belíssimo texto!

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  3. Maravilha Carla foi exatamente esse o sentimento de todos belíssimo texto você é 10

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  4. Geeente que texto profundo, uma retrospectiva dos momentos...parabéns Carlinha...

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  5. Bravissimo!!!! Reflexivo e realístico. Carla sempre dez!

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  6. Só alguém de espírito forte e iluminado poderia trazer os "Rs" mais importantes para estes tempos desafiadores: Rememorar, Repensar, Refazer, Rever, Reestruturar, Reformular, Reestabelecer, Regar.... Que beleza de texto, Carlinha, querida! Obrigada!

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