Porto mãe
Cinthia Barreto Santos Souza
Sou Porto ordinário, sou
tempo e lugar de chegada ou de partida. Sou eu. Como posso resistir sendo eu
lugar de ancoragem? Partiram todas as náuticas.
Visto o horizonte e
contemplo o movimento natural das embarcações arrastadas pelo vento suave ou
não. Procuro um binóculo para não os perder da paisagem. Não há sequer um bote
que me salve da soledade. Estão todos a navegar enquanto sou na minha condição
de porto. Porto Seguro?
Não permito desconfiança
sobre a base que cravei, pedra sobre pedra. Estou firme apesar das tempestades
ordinárias. Sou chegada, fui partida. Posso destinar e receber. Parece cômico,
uma ironia perversa, dizer que fazer partir é o ponto máximo de magnetismo para
um porto. Para quem? Tripulantes ou transporto? Para partir ou para chegar, sou
porto. Estarei no mesmo lado de onde nunca arredei a pedra angular. Estou fincada,
feita mãe que dá o peito como alimento fortificante. Tenho o comando das cordas
que laçadas dão nós e desatam nós.
O porto foi ontem destinado
em mim. Tudo era novo, sinto a madeira macia e fácil de modelar para a
construção do eu mesma. Sinto o cheiro da mata verde, da terra de onde a
matéria para o transporto foi tirada e dada a ser porto. Estou ancorada no
lugar de levo e de trago. Já não tenho o cheiro e a flexibilidade da madeira
moça que se dá ao molde e mostra-se linda, completamente fértil e pronta para o
envio de mais uma canoa. Sou muito mais forte. Árvore de pau-ferro. Sou o lugar
para onde voltar e passar o maremoto. Sou porto seguro, sou mãe, sou eu quem
sou.
Feito porto, marquei o ponto
de referência, lugar de encontro e de espera onde plantei meus pés enquanto
esperei que se divertissem numa festa, longe de meus olhos. O porto que levou e
esperou no estacionamento da escola para mais um embarque. Sou quem enfeitou a
casa e adornou a mesa para a visita ou a volta. Eu assisti sair e retornar em
todos os plantões ao longo das madrugadas, eu providenciei tudo para que fossem
em segurança e voltassem para descansar...
Porto mãe, que pela
constituição original e por tudo quanto pode acomodar como mudança, apesar de
porto, não tem porte para atracar toda e qualquer tripulação ou barco. Isso
porque é porto e precisa ser seguro. Porto que balança, acomoda, sofre a
mudança do tempo, a selvageria da maré, a onda gigante que amedronta e exige
que fique de pé. E mesmo quando não for mais possível dar-se as idas e voltas,
serei eterno porto seguro na invenção.
E mesmo quando os braços do
porto em mim já não forem matéria, a memória afetiva os levará ou trarão ao
porto alma, pensamento, sentimento e saudade...
Porto,
mãe, eu, vocês, nós, porto seguro.
A autora
Cinthia Barreto Santos Souza
Graduada em Letras com habilitação em Português, Inglês e Literaturas/UNEB, Especialista em Leitura Linguística e Produção de Textos, Psicopedagogia Escolar, Mídias na Educação, Educação à Distância. Mestre e Doutora em Família na Sociedade Contemporânea pela Universidade Católica do Salvador. Professora do Ensino Superior. Dirigente Municipal de Educação. Membro do Comitê de Ética e Pesquisa da FACEMP. Pesquisadora do grupo FAPEB/ Família, autobiografia e poética/UCSAL. Graduanda em Psicologia – FACEMP.


Que beleza de texto, querida Cinthia! Um presente neste mês em que se comemora a vida e a experiência materna de tantas mulheres que são e que podem ser "porto". Porto seguro que também é farol que ilumina o caminho na hora das partidas e chegadas .... Lindo e poético, como deve ser o ser mãe em sua vida!!! Parabéns!!!!!!!
ResponderExcluirMaravilha de texto! A poética invade a mente e o coração! Gratidão!
ResponderExcluir